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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Máscara...




Desejo refletir,
Além do humano,
Do sangue,do receio e do caos.
Refletir eu mesmo,
Em você,quem sabe?

Não quero ver maquiagem,
Sombra ou batom em sua face.
Quero saber do humano despido,
Invadir para além da carne.

Quero beber espasmos de tuas verdades,
Penetrar tua palavra íntima.
Retirar a máscara de tua existência,
E sorver sem culpa,
A essência de seu afeto.

domingo, 5 de outubro de 2008

O Vício em Desistir



Subia o morro.
Seus passos seguiam vacilantes,brincando com as pedras da passagem.Uma nuvem se formou no seu caminho.
Sua mulher e seu filho sorriam.Tentou segurá-los,mas desvaneceram diante de seus olhos.
O cheiro de álcool em seu corpo trazia de volta a lembrança de quem era.E ele queria esquecer tudo.Mas as pedras não deixavam,o odor do seu corpo não deixava,o som da favela não deixava.
Barulho dos infernos!Sussurrou ébrio.
Mais uma nuvem de sonhos surgiu em sua frente.Lembrou-se de quando chegara naquele pedaço de chão e que hoje se apresenta naquela favela.
Viu os animais no pasto,o gado vistoso e a grama verde.
Tudo se foi.Os animais que ocupavam aquele lugar eram outros.
Eram pretos,brancos,putas,ladrões,malandros.Alguns trabalhadores da esperança e toda sorte de gente.Os animais dantes se alimentavam melhor que aquela gente desgraçada e esquecida por Deus.
A nuvem se desfez novamente e ele viu que estava perdido no meio daquelas vielas.
Perdido.
Essa palavra saiu forte de sua boca,quase que um grito.Ele era o homem mais perdido do mundo.
...

Dezoito anos.Seu filho com certeza já seria um homem.
Ele ali,covarde,trapo de gente.Não conseguiu completar sua missão.
Com o trabalho promissor de capataz logo conseguiria trazer a mulher e o filho que nem viu vir ao mundo.
Mas fez amigos,conheceu mulheres e caiu no vício da bebida e do cigarro.
O dinheiro mal dava pra comprar sua comida.
Depois a fazenda foi acabando,todos tiveram que buscar outra coisa para fazer.
Mas ele foi ficando.Viu a favela nascer.
...

Tentou andar mais erecto.Desejava ver as horas no velho relógio de pulso.
Estava escuro,queria saber o quão tarde era.Não conseguiu enxergar.
Acabara de decidir que não beberia mais.
Iria procurar o filho e a mulher.Reparar seu erro.
Seus olhos brilhavam.
Sorriu.
Um zumbido atravessa o ar.
Um corpo desaba,inerte.Pela primeira vez,silêncio...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

* Raison D’être



Contrações... Elas estão se tornando cada vez mais freqüentes, apesar de acreditar estar no ápice de minha saúde, parece que meu organismo não é mais o mesmo, como se recebesse estímulos estranhos, alheios a minha percepção. Toda vez que elas acontecem tento me convencer que são apenas distúrbios de ordem natural, talvez devido as variadas influências dos ambientes ao qual sou exposto, mas meu inconsciente parece me apontar para algum processo irreversível, que apenas poderia ser discernível dentro das engrenagens dos níveis superiores do próprio mecanismo evolutivo da mãe natureza.

Vivo sorrateira e solitariamente dentro da Unidade, o próprio ambiente me provem de tudo que eu preciso, os outros não me dizem respeito, e a recíproca se verifica. Parece que existe um instinto coletivo que nos faz reconhecer os ambientes os quais poderemos melhor nos adaptar; como um chamado que urge em todos nós, que não dá margem para divergências, se não existem divergências, não há necessidade para diálogo.

Mesmo com os benefícios dessa “coletividade”, sempre me indaguei sobre qual o real significado desse arranjo se não existe nenhuma empatia entre os indivíduos, como um aglomerado de entes solitários. Essa nossa interdependência me permite usufruir o que os outros podem me oferecer e vice-versa, mas nem por isso eu sei alguma coisa a mais sobre o outro e, conseqüentemente, nem de mim mesmo nesse processo.

Continuar vivendo! Essa parece ser a única meta, mas será que eu é que estou errado em ficar questionando o “status quo”? Será que eu sou o único a levantar tais questões? Bem, é difícil saber, já que todos estão presos em nosso pragmatismo. Não sei se meu pensamento tem alguma relevância. É difícil conjecturar fora de um padrão que é o único conhecido. Vez por outra sinto a necessidade de tentar transmitir este sentimento a outros, mas essa empreitada, além de estranha, não natural, seria sem sentido, uma vez que não existem quaisquer laços entre eu e outros indivíduos. Bem como muitos se vão e nunca retornam e novos sempre aparecem.

Eu nunca havia pensado sobre a minha condição antes de começar a sentir essas diferenças em meu próprio corpo. Concomitante a isso, outras questões começam a surgir. Será que a minha existência terminará em algum momento? Existe algum propósito maior? Continuar vivendo... será mesmo a única meta?

Eu quase posso perceber as respostas. Sinto algo iminente. Um vazio que eu não percebia antes, como se algo irremediável se aproximasse ao qual eu seria apenas um peão ou um mecanismo no fluxo dos acontecimentos.

Mais uma vez! Mas há algo diferente agora. Está mais intenso. Elas vinham me atingindo com mais e mais intensidade, mas nunca algo parecido com isso. Me sinto paralisado. Ao redor percebo as coisas turvas e confusas. Aos poucos vou perdendo meu senso de orientação. Uma sensação nova vem me preenchendo e não consigo mais sentir a Unidade. Parece que vou me desconectando de alguma forma. O que está acontecendo? Será que aquele acontecimento derradeiro de que meus instintos me preveniam está se aproximando?

...

Silêncio e escuridão... Por quanto tempo fiquei fora do ar? Eu ainda não me sinto eu mesmo. Não sei o que acontece ao meu redor. Há algo estranho. Que sensações são essas? Será que elas pertencem a mim mesmo? Sinto meus sentidos desvanecer. Parece que minha consciência está sendo sugada para algum lugar, ou para lugar algum.

Parece que há mais alguém e ele não está sozinho. Será que ainda sou eu mesmo?

1-Eu me percebo.

2-Eu também.

1 e 2-E nós percebemos você.

Estou desvanecendo, sinto que logo não serei mais, mas isso não é mais relevante, pois parece que eu não sou mais único. Preciso não estar mais aqui para que as coisas se renovem. Então isso na verdade não é um fim, mas apenas um reinício. Vida e morte são complementares.

...

1- ...Eu sinto minha existência. Minha intuição agora me permite entender o meu papel dentro da Unidade...

2- ...A Unidade! Agora que estou aqui começo a entender o que devo fazer...

-x-

-Puxa, professor! Viraram dois! Do balacobaco!

-Sim, meu filho. Como eu já havia explicado antes, este é o processo de divisão celular. Ou seja, é como os unicelulares se reproduzem. Tomem cuidado com o microscópio, viu gente?! Lembrem-se que a escola não tem muitos...

( *Raison D’être: Razão de Ser.Conto escrito pelos meus companheiros Marcelo Albinati e Ronaldo de Paula, que fazem Letras comigo na UFSJ )

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Reminiscências do Sentir não Sentido...



Não conseguia definir quando se conheceram.
Conversaram e sentiram uma afinidade.
Talvez o olhar,talvez a pele,talvez a impaciência dela,quem sabe a curiosidade dele.
Ela gostava de falar,ele de ouvir a sua voz suave.
Não sabiam ainda o que era ou o que estava se transformando.
Decidiram ir pelo mesmo caminho.
Pararam para observar estrelas.
Ele pisou delicadamente no All Star azul e aguardou sua reação.
Ela sorriu...
Se olharam nos olhos e por um segundo o tempo parou.
Tchau,disse ela.
Até mais,disse ele.
Cada um seguiu para uma direção.
Não se amaram,não sentiram o gosto da boca um do outro,não brigaram,não sobraram cartas nem fotos.
Ele não zangou-se com ela.
Ela não sentiu nojo dele.
E quando se vêem,sorriem e se cumprimentam.
O amor não aconteceu.
E ele nunca escreveu sobre ela.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Morrer Acontece...



Morrer não é nada mais do que nascer ao contrário.Morrer é fácil,difícil é assobiar e chupar manga ao mesmo tempo.
Você pode estar sentado no sofá,assistindo a mais um episódio de "Os Simpsons" e de repente você sofre uma ruptura de aneurisma cerebral e morre.Nem vai ficar sabendo que morreu.Vai achar que fechou os olhos para espirrar.Esse é o tipo de morte em que as pessoas olham o defunto no caixão e dizem:"Coitado,era tão bom...morreu e nem ficou sabendo".
Tem também aquela morte em que a pessoa sabe que vai morrer (tem um câncer maligno que se espalhou pelo corpo) e tem que ficar esperando.Primeiro vem o desespero,depois a resignação.Depois, a impaciência, porque a morte de vez em quando atrasa.No velório vão dizer como o sujeito era bom e o clichê "descansou,coitado".
Não podemos esquecer de quem morre porque quer:o suicida.É o cara que decide não esperar a morte,é talvez um impaciente ou alguém que não se adaptou a este planeta,que não sabe viver e entender as coisas do mundo,cansado demais para continuar.E põe fim a isto tudo encerrando sua própria existência.Se não bastasse a dor de viver o suicida é torturado ainda com choros,velas e rezas.
E tem gente que consegue morrer vivendo.São pessoas que respiram,andam e se alimentam,mas estão mortas porque perderam a esperança. E a morte da esperança cria zumbis que não observam o mundo,as pessoas e toda beleza e tristeza da vida que o serve.
Morrer acontece,assim como morre esta crônica,simples,num ponto final.


"Todo mundo então era pérfido, mentiroso e falso? E lágrimas lhe vieram aos olhos, pois choramos sempre a morte das nossas ilusões com a mesma mágoa com que choramos os nossos mortos."(Guy Maupassant)



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